sexta-feira, 17 de maio de 2013

Paralelas


Uma estrada longa no meio do deserto do Atacama. O clima árido e a vegetação seca refletem o cenário perfeito para cena comum: dois carros andando lado a lado pela via longa e paralela…
Os dois veículos já eram conhecidos de longa data. O primeiro com personalidade forte, desprendido e já havia pertencido a diversos donos, o mundo era pequeno para ele. Sempre queria se superar nas andanças da vida.
O segundo veículo era mais discreto. Nunca havida saído para longe e a dona, uma mulher, a o paparicava de todas as formas. Sempre aparecia exuberante, com a pintura brilhante e os faróis radiantes, que pareciam sorrir.
Sempre pegavam a estrada no mesmo horário. Saiam de casa pontualmente às 7h. todos os dias se topavam nas paralelas enormes. Trocavam olhares, as vezes quando a bateria de um resolvia dar problema, o outro sempre estava ali para ajudar. Ficaram grandes companheiros pelo acaso do destino.
Mas, apesar da proximidade, havia algo que os separava: a faixa amarela no chão delimitando a área que cada um devia prosseguir. Dali nunca haviam passado. Somente em casos de extrema necessidade, porém, nunca se tocaram. o apoio dado era mais moral do que literal.  
os dois esperavam ansiosamente o dia em que andassem tanto, tanto, tanto a ponto de chegarem num cruzamento. Sim. Eles queriam que as paralelas se cruzassem para, finalmente, se tocarem. E, talvez, quem sabe, ficarem por um tempo ali parados, somente olhando as características de motor, pintura e para-choque.
O primeiro carro, apesar de possuir o espírito desprendido e a vontade incontrolável de correr, correr e correr numa estrada sem obstáculos ou curvas... Queria viver a experiência de se cruzar e, nem que fosse por uma vez, ficar.
O segundo veiculo amanhecia todos os dias desejando que o companheiro de estrada continuasse querendo o cruzamento com a mesma intensidade.
Até agora nada mudou. Continuando saindo pontualmente às 7h e pegando a mesma avenida com clima seco e muita poeira. Voltam para a casa sem se toparem,  mas com o desejo cada vez maior que um dia se cruzem para valer. E se enrosquem. Para nunca mais soltar.