terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Valor quebrado

Parecia somente mais um presente que ganhara da amiga. Um porta joia de cristal. Lindo e muito frágil. Não sabia direito o que ia fazer com aquilo. Sem grandes pretensões, deixou em sua penteadeira e colocava somente coisa com pouco valor, bijuterias baratas..daquelas que toda mulher compra de baciada toda semana. 

Com o passar dos ponteiros, começou a ver que aquele porta joia tinha muito espaço do que ela imaginou. Ele era feito com um material raro.. um cristal valioso que não se acha a cada esquina. Percebeu, então, que era hora de mudar as peças que ali estavam. Tirou as bijuterias baratas e depositou as poucas joias que tinha. 

Resolveu que era o momento certo de cuidar daquele adereço tão valioso. O próximo passo foi tirá-lo da beirada do móvel e levá-lo para o fundo. Num lugar onde ele estivesse fora de perigo. A cautela e o carinho foram ficando mais fortes com o passar do tempo. 

O porta joia começou a ganhar não só atenção redobrada, mas angariava destaque diante de todos os outros potinhos para guardar as pulseiras, colares e aneis que não paravam de chegar. 

O brilho do queridinho porta joia fascinava. Ele parecia tão intenso, forte, fiel e superior aos outros. Não era igual a tudo que ela já teve na vida. 

A dona o admirava. Admirava tanto a ponto de criar vínculo. Admirava a ponto de todo dia chegar e se preocupar com poeira, arranhões, batidas.. 

De tanto manusear o objeto mais valioso... um dia ele surpreendeu com uma rachadura. Parecia pequena e reparável. Mas somente isso já foi um baque. A dona ficou sem saber o que fazer, não queria acreditar que seria o fim. 

Tempos depois, após uma tentativa frustrada de consertar o objeto tão valioso.. ele se quebrou. Não só isso. Ele a feriu com um corte profundo na mão direita. O sangue escorria, assim como as lágrimas. Mas não era esse o problema..

O choro não era só pelas joias no chão, não era só pela quebra do objeto. Era pelo questionamento: como esse porta joia que cuidei com tanto carinho pode me ferir desse jeito?

Não havia outra saída. Restava somente recolher os cacos, esperar a dor passar para quem sabe um dia encontrar um porta joia que mereça receber as suas melhores joias novamente. 

Roda gigante


Há quatro anos ela não se sentia assim. A menina de cabelos loiros escorridos e olhos azuis não se esquecera da primeira vez que havia andado na roda gigante. 
Há quatro anos não sentia aquela sensação de liberdade, mas ao mesmo tempo um frio enorme na barriga em pensar o que estava por vir. O olhar ansioso pelo que lhe aguardava era o mesmo. As cenas e os questionamentos que passavam pela sua cabeça eram idênticos. Parecia um replay de tudo …
Mas ela sabia que era hora de tirar os pés do chão novamente. Precisaria subir naquela cabine enfrentar mais aquele passeio que estava pela frente. Sabia que, no fim, a vista será linda, mas e o caminho a se percorrer até o topo era o grande problema. Bem no fundo sabia do medo que lhe assombrava. Ela não admitia para ninguém - nem pra ela mesmo. 
A roda girou, a fila andou e sua vez de subir havia chegado. Vontade de desistir, jogar tudo pro alto e sair correndo. Mas ela precisava daquele passeio. Era para seu bem e para alegria de todos aqueles que acompanham seu crescimento. 
As inseguranças, medos e questionamentos de exatos quatro anos atrás são os mesmos. Ela sabe que não é mais a mesma. E sabe que quando o topo chegar, todos os sentimentos de minutos antes de abaixar a trava de segurança vão pelos ares. 
A roda gigante e a mesma. O caminho até o topo, não sabemos. 
O fato é que esta menina já está na cabine. A trava de segurança no seu lugar adequado.
A viagem vai começar e o frio na barriga não diminuiu, mas ela sabe que logo menos o medo se transformará em sorrisos.
Olha na plataforma e vê …exatamente o necessário para aquecer o coração a ponto de gerar força de continuar e, principalmente, de enfrentar. 

Entrelaço


Qualquer frase que ironizasse o destino ou o acaso estava na ponta da língua. O conformismo era a tendência mais forte daquela garota. Ela já havia aceitado a condição de nunca mais amar ou de nunca mais viver algo que realmente lhe tirassem os pés do chão. 
Viver coisas efêmeras, sentimos água com açúcar e sua permanência da zona de conforto. A vida estava perfeita assim. A tarde caía e ela ia em busca de mais sorrisos. 
A rotina era a mesma: levantar em pleno domingo de manhã, colocar seu tênis, fones de ouvido e o parque. Era correndo que ela se sentia livre. O som alto e o vento batendo em seu rosto lhe faziam se sentir leve e bem. Essa combinação sempre lhe trazia o prazer que faltava, completava a parte que estava sem encaixe há anos. A mágica de estar só. 
E dessa maneira ela foi seguindo. A cada bocado de tempo quebrando a cara com a certeza que o ser humano é uma grande decepção. A sensação se estar livre durante suas corridas aos domingos pela manhã era a válvula de escape. 
Era tudo que ela mais queria: sensação de L-I-B-E-R-D-A-D-E.
O vento que lhe fazia bem ao tocar seu rosto, resolveu que era pouco para aquela moça esguia, de cabelos pretos lisos e olhar penetrante. Ele resolveu soprar com tanta força que arrastou para a vida dela alguém especial. Como se os laços da vida se enroscassem para nunca mais soltar.
O olhar antes fugitivo, parou. O coração antes medroso, saltou. As corridas em pleno domingo de manhã continuavam. Mas agora com um motivo diferente: pelo fato de não correr sozinha. 
O antes desacreditado destino teve ajuda do vento para provar o óbvio: o que é pra ser nosso… simplesmente vem. Entrelaça e bagunça, assim como forte ventania numa tarde linda de primavera. 

Tudo é uma questão de postura


Precisava andar sem rumo em meio aos prédios..
O motivo era simples..mais pura constatação de como ele se sentia há tempo: pequena.
Em meio aos corredores de carros, ônibus, pessoas apressadas nos seus mundinhos, olhando pra baixo como se buscassem algo que nunca vão encontrar 
Ela, no fundo, era uma delas.. 
Pensamentos a milhão…
Não entendia muitas coiaas..  o que tava acontecendo. Aquele sentimento, aquela vontade de fuga, desejo de ser uma mulher maravilha e de ter o poder de resolver tudo. De livrar e de arrancar dores e secar lágrimas. 
Se deu conta do quão paradoxa era. E como as cenas da vida mudam… depende dos atores que nela estão.
Aquela menina de expressão doce de um tempo pra cá era intolerante, carente, chata, impaciente.. Abadonava o barco e jogava tudo pro alto por muito pouco.
Ao notar pequenos detalhes da vida urbana resolveu assumir essa postura tão recente, mas tão característica … mas dessa vez era pra melhor.
E dane-se que são dois pesos e duas medidas. Simplesmente ela queria viver. Libertar-se de tudo… até mesmo das eternas memórias que o local da sua caminhada lhe trazia.
“Sim são duas situações iguais e em menos de um mes vou agir de maneira absolutamente diferente”, pensava
Mas, ao chegar no ponto final do trajeto, tudo ficou claro
Tem certas pessoas que valem a pena. 

Presente misterioso


Chovia muito naquela noite de sexta-feira. Fazia frio, principalmente naquele apartamento no centro de Belo Horizonte. 
Os carros andavam pela avenida do Contorno sem pressa. Como todo bom e típico mineiro. Mas naquela casa, o tempo passava mais devagar. Tudo ali era mágico, mas não de maneira encantadora. Tudo estava muito mais cheio de motivos. A busca por eles, na realidade.
E a noite que se iniciava parecia ser mais triste do que as outras que ela já tinha passado ali. Sozinha. Com o vazio da sala. O silêncio no telefone. A caixa de entrada de mensagens do seu celular sem se quer algo que lhe fizesse o coração pular. 
A meia-noite se aproximava quando a campainha tocou. Após um susto, ela abandonou as cobertas sobre o sofá, pausou um filme qualquer que passava na tv e lentamente caminhou até a porta. 
Ao observar o olho mágico …ninguém.
Receosa, ela abriu a porta.
Estava posto ali em sua porta um buquê. Eram rosas.Brancas. Amarelas. Vermelhas. Rosas. 
Todas já florescidas e com ar de frescor. Sem espinhos. 
O cartão não lhe desvendava o remetente, mas havia uma ordem:
“Tudo isso é para que você melhore logo!”
As pessoas são diferentes. Mas Deus envia as pessoas certas quando mais precisamos. E elas surgem de onde a gente menos espera. 
O coração anda frio, mas as rosas tem tentado deixar a vida um pouco mais colorida. 
Obrigada por tudo. Resume. 

Até que a morte os separe?


Todos dizem “até que a morte os separe”
Mas há sentimentos que ultrapassam a linha tênue para o lado de lá.
Existem histórias para nos provar que o amor na sua mais pura essência existe perdido em alguma esquina paulista. 
O amor que espera, suporta, ensina, aprende, vive …
E sobrevive, apesar da cruel passagem dos ponteiros.
É mais puro sentimento de entrega, renúncia, doação…
Amor não é só dar valor na vida, mas depois da partida..
Lágrimas incontroláveis, apesar de anos do luto. Sorrisos ao reler o mesmo texto, no qual já está decorado. Voz trêmula ao falar o nome do amado.
Amor além da morte é manter vivo em cada expressão o que se sente. 
Hoje eu encontrei o amor nos olhos de uma senhora. E me encantei.
Saí de um apartamento próximo da Av.Paulista com o desejo de ter um amor assim. Para além da morte. 
Obrigada, Dona Albertina. Obrigada, Leônidas da Silva. 

Roda vida, roda viva.


A vida é uma grande ciranda. Que por vezes  assusta, mas no segundo seguinte fascina.
No correr dos dias, essa grande roda vai girando.. pessoas entram na dança. No mesmo compasso intenso, outras saem.
Nem sempre nós, apenas mais um personagem nessa enorme trama, conseguimos lidar com os enlaces e percalços dessa roda.
Ás vezes ela corre demais.
Mais do que esperamos, queremos, desejamos … tentamos conter os movimentos, mas é em vão. 
Porém, ao olhar pro lado, vamos uma lerdeza sombria e fria.. muito fria. 
Quando parece que o caminhar das pessoas em nossas cirandas anda muito desmotivado ou fora de ritmo ..
Bailarinos entram em cena… nos levam, mostram novos horizontes. 
É pra eles que devemos olhar quando tudo parece fora órbita… 

Desafio de ser mais…humana.


A verdade é que ela luta contra o tempo.
O tempo de amar, viver, sobreviver, trabalhar, divertir…
O tempo de ter a oportunidade de ser ela mesmo. Sem máscaras, hipocrisia ou sorrisos amarelados.
É como se todos os dias levantasse com desafio de ser um pouco mais feliz, um pouco mais realizada. 
Em grande parte, infelizmente, tem perdido essa luta contra o tempo.
Pelo caminho - que anda sendo bastante árduo - ela tem deixado escorregar de suas mãos instrumentos importantes para ser feliz.
Paciência, tolerância, companheirismo, amizade, amor, compreensão …
Tem a impressão que tem deixado cair pela beirada da trajetória um pouco de si … daquela que todos admiram, amam e querem ter ao lado.
Não tem feito o suficiente pra si mesmo. A constatação dói mais do que o suportável.
Não consegue parar por algumas horas pra pensar em si, não arruma tempo hábil para pessoas especiais (sejam elas de longa data ou não), olha no espelho e não dá para identificar grande parte do que já foi um dia.
Todos os dias é uma verdadeira peleja para ser melhor, mais calma e dedicada. Sabe que na verdade só precisa parar, respirar e pensar um pouco mais nela mesma. Estar focada no crescimento, mas não tornar isso o centro do mundo.
Porque será que com o caminhar dos acontecimentos é tão difícil pensar na sua vida?
O “meu” talvez tenha sido a primeira grande perda dessa mulher …
Porém, chegou o momento de mudar a ordem dos ponteiros.
É o momento de amar mais, viver mais e colocar uma grande colher de verdade nisso tudo. Realismo !
Ser mais humana .. essa será motivação para levantar todos os dias, independente do que acontecer.
O momento que ela está é especial demais para que tudo escorregue entre os dedos…
“Porque tudo é uma questão de ter a mente quieta, a espinha ereta e o coração 
tranquilo” (Provérbio Chinês)

Relógios


Era um galpão pequeno, mas com espaço suficiente para abrigar ferramentas, papéis e muitos relógios. O local escuro, mas tinha um pouco do Sol que entrava pelas frestas do teto de madeira.
Apesar da pouca luminosidade, dois relógios saltavam aos olhos de qualquer pessoa que por ali ousasse entrar. Eram dourados, de bolso, com desenhos típicos de uma realeza. Estavam ali, lado a lado, o relojoeiro havia colocado um perto do outro justamente pelas semelhanças. 
Os dois seriam iguais, se não fosse um detalhe pequeno, porém mortal. Os arranhões que cada um trazia consigo. Um deles estava muito mais surrado, nitidamente. Vivera muito mais intensamente, experiências dolorosas, quedas complicadas. O outro ainda tentava se libertar do estereótipo de novinho, bem cuidado, protegido. 
A sintonia entre os dois objetos era nítida. A troca de força e a beleza que passavam era encantador. Entretanto, os arranhões começaram a fazer diferença. Um se achava demais, outro de menos. As barreiras colocadas estavam demais. O relógio mais novo fitava seu co-irmão com grande afeto. Pedia passagem, mas não tinha sucesso. Lutava, tentava se mostrar ao Sol, com objetivo de brilhar ainda mais e mostrar seu valor. Nada. Tentava alcançar o nível, a superioridade, a frieza para tal situação que o outro possuía ..
O relógio mais arranhado teimava em se mostrar arredio, quando se dava ao luxo de atentar para o seu lado. As experiências fazem toda diferença - para o bem e para o mal. 
As marcas do uso afastaram os dois relógios. E não foi por escolha do relojeiro. 

A cigana


Cabelos negros e compridos, amarrados com uma rosa vermelha, escorriam pelo lado direito de seu rosto. Os grandes olhos castanhos penetravam no mais íntimo da alma. O rosto fino, a boca carnuda pintada de carmim. Dentes brancos se revelavam a cada sorriso. 
Imagem mais do que sedutora.
Seu corpo era milimetricamente perfeito. Sua pele morena contrastava com seu vestido branco, cheio de babados, que deixava um ombro a mostra. As pulseiras douradas balançavam e o chamavam para dança. O rebolado incrível, as mãos girando, os braços envoltos de seu próprio corpo, as pernas grossas de fora. A sensualidade exalava pelos poros. Cada compasso da música animada e das palmas, os olhos dela chamavam pelos olhos e, principalmente, pelos desejos dele. 
A noite transcorria e ele continuava ali, em pé, parado, não acreditando no que presenciava. Deslumbrado. 
Nada mais importava ao seu redor. As barracas bem iluminadas, o luar brilhante, o som impecável do violão, o cheiro da dama da noite, o rio cheio e robusto mostrando toda sua potência.
Ele estava fissurado naquela cigana, que chegou de mansinho, como quem não quer nada e o prendeu de tal forma que estarrecia. Não conseguia olhar ao seu redor. 
O que ele ainda não se deu conta é que apesar de toda beleza, sensualidade e sedução, ela é uma cigana. E logo menos vai partir, pois a vida itinerante não perdoa. Somente depois da decepção ou da partida é que os olhos se abrirão novamente.