quinta-feira, 27 de junho de 2013

Pontes

De longe, olhava o castelo com um rio límpido na frente. Imaginava como seria o caminho até o local que tanto sonhava conhecer. A distância era longa, mas a vontade de estar lá e conferir de perto todas os detalhes do lugar era maior.

Então, num dia claro de verão resolveu que o momento havia chegado. Logo que saiu percebeu que para chegar ao castelo era preciso atravessar várias pontes. Pensou: 'não é perigoso, vai ser mais fácil do que imaginei. chegarei antes do esperado'.

Ela estava enganada.

O caminho na primeira ponte parecia fácil no começo, mas o musgo no chão de concreto a fez cair. Escorregou e quando menos percebeu estava prostrada e triste. Mas.. passados alguns minutos.. estava de pé novamente. Por algum tempo, a caminhada foi bem mais lenta. O medo de cair novamente a fazia ir com cuidado e nunca mais deixava pegadas por onde passava.

Atravessou a primeira ponte.

Com o sucesso da conclusão, caminhou alguns quilômetros até o segundo obstáculo. O chão desta vez era de madeira. Todas as pessoas da pequena vila aonde morava haviam avisado que a ponte de madeira era a mais traiçoeira de todas. Ela estava tão confiante em chegar ao castelo - neste momento já minimizava os efeitos do primeiro tombo - que começou a andar como nunca. Passos fortes e rápidos. Até que uma madeira solta a fez simplesmente cair de joelhos. Dessa vez, a queda foi feia. Joelho cortado e muito sangue. As lágrimas eram inevitáveis. A recuperação demorou a chegar. Pensou em desistir. Quem não pensaria? O caminho era difícil demais pra ela. "O castelo não deve ser para o meu bico", balbuciava entre o choro. Após horas e horas ali caída, percebeu que não poderia ficar assim. Ainda com muita dificuldade se levantou.

Dessa forma, ela atravessou a segunda ponte.

Ela ainda estava insegura com a caminhada quando, de repente, notou que havia um atalho que a faria chegar mais rápido ao castelo. A trilha parecia bem menos tortuosa e bem menos traumática do que a última. Resolveu pegar esse atalho. Caminhou, caminhou, caminhou, caminhou. E cansou. Simplesmente o tempo para ficar ali acabou. Desceu mais um pouco. Encontrou um lugar confortável para passar a noite e estava disposta a voltar para sua casa assim que o dia amanhecesse. Enterrar a vontade de conhecer o castelo e se conformar que nunca iria conseguir.

Quando o dia amanheceu, ela ouviu o barulho do rio. Não quis acreditar e ali permaneceu. Atônita. Não podia ser que o atalho estava certo. Ela caminhou tanto, tanto, tanto sem nenhuma demonstração de que ali era o lugar certo. Resolveu abortar a missão de voltar e, ao invés disso,  decidiu que iria descer mais um pouco. Desceu. E ali ficou.

Ficou porque, após tantos machucados e cansaço, havia chegado ao seu destino. Na sua frente estava o rio que a lavaria de todas as sujeiras do caminho e o castelo que tanto quis conhecer. Lágrimas nos olhos, sensação indescritível e pernas trêmulas. Era ali que ela sempre desejou estar. Era ali, no rio de águas claras e no castelo imenso, o seu lugar. Como sempre sonhou. Para sempre.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Paralelas


Uma estrada longa no meio do deserto do Atacama. O clima árido e a vegetação seca refletem o cenário perfeito para cena comum: dois carros andando lado a lado pela via longa e paralela…
Os dois veículos já eram conhecidos de longa data. O primeiro com personalidade forte, desprendido e já havia pertencido a diversos donos, o mundo era pequeno para ele. Sempre queria se superar nas andanças da vida.
O segundo veículo era mais discreto. Nunca havida saído para longe e a dona, uma mulher, a o paparicava de todas as formas. Sempre aparecia exuberante, com a pintura brilhante e os faróis radiantes, que pareciam sorrir.
Sempre pegavam a estrada no mesmo horário. Saiam de casa pontualmente às 7h. todos os dias se topavam nas paralelas enormes. Trocavam olhares, as vezes quando a bateria de um resolvia dar problema, o outro sempre estava ali para ajudar. Ficaram grandes companheiros pelo acaso do destino.
Mas, apesar da proximidade, havia algo que os separava: a faixa amarela no chão delimitando a área que cada um devia prosseguir. Dali nunca haviam passado. Somente em casos de extrema necessidade, porém, nunca se tocaram. o apoio dado era mais moral do que literal.  
os dois esperavam ansiosamente o dia em que andassem tanto, tanto, tanto a ponto de chegarem num cruzamento. Sim. Eles queriam que as paralelas se cruzassem para, finalmente, se tocarem. E, talvez, quem sabe, ficarem por um tempo ali parados, somente olhando as características de motor, pintura e para-choque.
O primeiro carro, apesar de possuir o espírito desprendido e a vontade incontrolável de correr, correr e correr numa estrada sem obstáculos ou curvas... Queria viver a experiência de se cruzar e, nem que fosse por uma vez, ficar.
O segundo veiculo amanhecia todos os dias desejando que o companheiro de estrada continuasse querendo o cruzamento com a mesma intensidade.
Até agora nada mudou. Continuando saindo pontualmente às 7h e pegando a mesma avenida com clima seco e muita poeira. Voltam para a casa sem se toparem,  mas com o desejo cada vez maior que um dia se cruzem para valer. E se enrosquem. Para nunca mais soltar. 

domingo, 14 de abril de 2013

Pelo que é verdadeiro..


Não gostava de bonecas, nem de brincar de casinhas e muito menos de escolinha. Seu melhor passatempo era o boomerang. Ir ao parque num dia ensolarado e jogar seu brinquedo para ter a satisfação de vê-lo lá no alto contrastando com o céu azul sem nuvens.

Por anos a fio colecionou o objeto: rosa, azul, verde, vermelho, preto, branco... repetia sempre que amava morar na sua cidade justamente pelas tardes ensolaradas e os parques. A sensação de liberdade era tudo que ela mais amava.

No começo ia jogar boomerang acompanhada de seus pais. O tempo passou quando se tornou adolescente e os amigos tomaram lugar no seu programa predileto. Não tinha jeito. Aquela menina de cabelo loiro era completamente fascinada pela brincadeira ou esporte, chame como quiser.

É clichê, mas o tempo passa. Nesse caso foi implacável. Chegou a hora de ir para faculdade. A cidade com dias lindos, céu azul, muitas árvores daria lugar a uma verdadeira selva de pedra.

Não era o momento apenas de deixar a casa dos pais, os amigos e a vida pacata de colégio para encarar uma faculdade. A mudança obrigava o abandono da prática do boomerang. Ela sabia que não conseguiria levar sua prática adiante numa cidade onde o cinza prevalece.

Arrumou as malas. Marcou despedidas: amigos, família, antigos professores.. comemorações pela nova fase. Ela estava feliz. Iria cursar arquitetura na melhor universidade do país. Era tudo mais sonhou.

Os dias foram se arrastando. Ela sabia que uma hora teria que encarar a despedida daquilo que mais lhe fez bem durante os 18 anos. Certo dia tomou coragem. Pegou todos os seus brinquedos e colocou numa caixa.

Caminhou sozinha até o parque. Abriu a caixa. Com o coração apertado, o olhar marejado.. jogou o primeiro. O segundo. O terceiro. O quarto..

Guardou o último. O rosa. O primeiro que seu pai lhe deu. Apesar do choro, ela sabia que o boomerang sempre volta.  Se eles realmente a pertenciam realmente.. eles voltariam. Como forma de lembrar disso escreveu numa árvore: “Tudo que é seu... volta”.

quinta-feira, 7 de março de 2013

Encontro (des)marcado


Havia uma ligação inexplicável. A relação não conseguia ter um ponto final. Tudo era pautado em reticências, vírgulas e travessões. O ciclo vicioso seduzia, encantava e intenso. A ligação não era desse mundo, não era normal. Era algo sobrenatural.

Talvez esse lance de alma gêmea realmente exista. Para eles, essa ideia tornou-se absolutamente viável e real. O encontro de duas almas, que num plano muito maior do que esse nosso, foram destinadas a ficar juntas. 

Ela, ainda meio confusa com os acontecimentos dos últimos dias, ouviu uma recomendação despretensiosa: “Cuidado com o destino. Ele brinca com as pessoas.”

Isso ficou rodando dentro da cabeça dela como se fosse um sinal. E na verdade, talvez seja mesmo o acaso tentando mostrar que nem sempre o final é feliz e ficamos com aqueles que amamos de verdade.

Mas a única certeza é que os encontros das almas superam todo o resto. a troca dos olhares de cumplicidade, os momentos de companheirismo que tiravam os pés do chão, os sorrisos genuínos, o tocar das mãos, o beijo apaixonado em meia luz fotografado numa noite fria. Os olhos fechados refletiam a felicidade, como se estivessem estalados e brilhantes.

As promessas ditas e escritas, daquelas registradas em cartões, pequenos guardanapos, agendas e pequenos presentes. Todas as coisas exalavam apenas uma coisa: o encontro de duas almas que nasceram para se amar.

Mas a todo instante ela questionava se era o encontro e a força da ligação era suficiente para que eles ficassem juntos. Por mais que suas almas e seus espíritos sejam perfeitos e se encaixem como nunca.. Talvez, somente em novelas e filmes o final feliz com o grande amor da exista.

Um dia ouviu de um amigo que a ficção possui final feliz porque não é final da historia de um relacionamento, mas o começo.

Sabia que não estava pronta para assumir o grande amor. Tinha certeza que não era forte para deixar partir. Resolveu entregar ao acaso. Nutre uma fé naquilo que sempre traz ele de volta. 

sábado, 2 de março de 2013

Caminhos tortuosos


Ainda com dificuldade de enxergar o que estava em sua frente, ela se levantou. As pernas bambas não negam o medo que ela sentia diante da situação pouco confortável. Ela estava num labirinto desconhecido. Diversas opções de caminhos, propostas, saídas que parecem levar a escapatória. 

Meio tonta, ela começa a caminhar pelo corredor principal. Escuro, estreito e com diversos desníveis que só complicaram ainda mais o começo da caminhada. Ela se sentia fraca - não sabia quanto tempo estava aprisionada. A fina chuva só piorava o frio que ela sentia. A escuridão dificultava qual rumo tomar. Caminhava em uma reta só esperando que final estivesse logo ali e ela, finalmente, conseguisse sair dali. 

A cada momento, fica desconjurando porque ela ali estava. "Logo eu, que sou tão forte, tão resolvida, tão boa, tão isso, tão aquilo..." . Só sabia culpar os outros pela sua situação. Ao revoltar-se com a situação, caminhava cada vez mais rápido e sem rumo.. a revolta fez com que ela chutasse as árvores que poderiam lhe ensinar o caminho. Sempre no controle de tudo, agora estava sozinha, sem o que e quem controlar. 

Cada chute, cada soco que dava nas paredes ou nas árvores do labirinto tentando abrir caminho lhe machucavam ainda mais. O andar ficava cada vez mais complicado. As feridas começavam a sangrar. A dor era muito grande. Ela simplesmente resolveu sentar e se conformar que estava destinada a aficar daquela maneira. "Não vou mudar, nunca. O erro não está em mim", gritava na tentativa de que alguém a ouvisse. O único retorno era o eco do seu choro, que naquele momento já era alto. 

Novamente a raiva tomou conta dela. Começou a correr enquanto a chuva aumentava. Quebrava galhos, resmungava, gritava. Ela só queria sair dali. Até que veio o tombo. Ela caiu. Prostrada, ela chorou. Mais do que isso, ela caiu em si. Viu que grande parte do que estava vivendo era sim sua culpa. Sempre exigiu mudança, mas ela nunca ofereceu nada em troca para que as transformações acontecessem. 

Só sabia cobrar, controlar, irritar, julgar e trocar papeis. Suspirou para tirar todo o peso das costas. Percebeu que ela estava no labirinto porque ela nunca aprendeu a olhar para dentro de si mesmo. Não vê que precisava passar por uma mudança. A quantidade de verbos não lhe fazia bem. Não fazia bem para aqueles que a amam. Era necessário trocar por substantivos e por adjetivos.

Era preciso trocar os verbos tão pesados por uma única qualidade: inteligência.

Somente com a parada e o exercício de olhar para dentro de si é que ela conseguiria traçar estratégia para sair daquele labirinto. É preciso sentar no paralelepípedo molhado do labirinto, encostar sua cabeça entre as árvores e refletir no que ela precisava mudar? Após todas as conclusões é necessário dar inicio ao processo de mudança. Ela sabe que isso não é fácil e muito menos simples.

Porém, a menina também tem consciência que somente com esse processo lento de mudança ela vai conseguir sair do labirinto e, finalmente, ver o Sol brilhar lá fora. E espera não terminar sozinha. 

Ao olhar para o lado, ela não estará sozinha. Alguém, aquele alguém que só ela sabe quem, estaria ao seu lado com as mãos entrelaçadas para, finalmente, viverem juntos. Para isso, ele também precisa sair do labirinto. 

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Valor quebrado

Parecia somente mais um presente que ganhara da amiga. Um porta joia de cristal. Lindo e muito frágil. Não sabia direito o que ia fazer com aquilo. Sem grandes pretensões, deixou em sua penteadeira e colocava somente coisa com pouco valor, bijuterias baratas..daquelas que toda mulher compra de baciada toda semana. 

Com o passar dos ponteiros, começou a ver que aquele porta joia tinha muito espaço do que ela imaginou. Ele era feito com um material raro.. um cristal valioso que não se acha a cada esquina. Percebeu, então, que era hora de mudar as peças que ali estavam. Tirou as bijuterias baratas e depositou as poucas joias que tinha. 

Resolveu que era o momento certo de cuidar daquele adereço tão valioso. O próximo passo foi tirá-lo da beirada do móvel e levá-lo para o fundo. Num lugar onde ele estivesse fora de perigo. A cautela e o carinho foram ficando mais fortes com o passar do tempo. 

O porta joia começou a ganhar não só atenção redobrada, mas angariava destaque diante de todos os outros potinhos para guardar as pulseiras, colares e aneis que não paravam de chegar. 

O brilho do queridinho porta joia fascinava. Ele parecia tão intenso, forte, fiel e superior aos outros. Não era igual a tudo que ela já teve na vida. 

A dona o admirava. Admirava tanto a ponto de criar vínculo. Admirava a ponto de todo dia chegar e se preocupar com poeira, arranhões, batidas.. 

De tanto manusear o objeto mais valioso... um dia ele surpreendeu com uma rachadura. Parecia pequena e reparável. Mas somente isso já foi um baque. A dona ficou sem saber o que fazer, não queria acreditar que seria o fim. 

Tempos depois, após uma tentativa frustrada de consertar o objeto tão valioso.. ele se quebrou. Não só isso. Ele a feriu com um corte profundo na mão direita. O sangue escorria, assim como as lágrimas. Mas não era esse o problema..

O choro não era só pelas joias no chão, não era só pela quebra do objeto. Era pelo questionamento: como esse porta joia que cuidei com tanto carinho pode me ferir desse jeito?

Não havia outra saída. Restava somente recolher os cacos, esperar a dor passar para quem sabe um dia encontrar um porta joia que mereça receber as suas melhores joias novamente. 

Roda gigante


Há quatro anos ela não se sentia assim. A menina de cabelos loiros escorridos e olhos azuis não se esquecera da primeira vez que havia andado na roda gigante. 
Há quatro anos não sentia aquela sensação de liberdade, mas ao mesmo tempo um frio enorme na barriga em pensar o que estava por vir. O olhar ansioso pelo que lhe aguardava era o mesmo. As cenas e os questionamentos que passavam pela sua cabeça eram idênticos. Parecia um replay de tudo …
Mas ela sabia que era hora de tirar os pés do chão novamente. Precisaria subir naquela cabine enfrentar mais aquele passeio que estava pela frente. Sabia que, no fim, a vista será linda, mas e o caminho a se percorrer até o topo era o grande problema. Bem no fundo sabia do medo que lhe assombrava. Ela não admitia para ninguém - nem pra ela mesmo. 
A roda girou, a fila andou e sua vez de subir havia chegado. Vontade de desistir, jogar tudo pro alto e sair correndo. Mas ela precisava daquele passeio. Era para seu bem e para alegria de todos aqueles que acompanham seu crescimento. 
As inseguranças, medos e questionamentos de exatos quatro anos atrás são os mesmos. Ela sabe que não é mais a mesma. E sabe que quando o topo chegar, todos os sentimentos de minutos antes de abaixar a trava de segurança vão pelos ares. 
A roda gigante e a mesma. O caminho até o topo, não sabemos. 
O fato é que esta menina já está na cabine. A trava de segurança no seu lugar adequado.
A viagem vai começar e o frio na barriga não diminuiu, mas ela sabe que logo menos o medo se transformará em sorrisos.
Olha na plataforma e vê …exatamente o necessário para aquecer o coração a ponto de gerar força de continuar e, principalmente, de enfrentar. 

Entrelaço


Qualquer frase que ironizasse o destino ou o acaso estava na ponta da língua. O conformismo era a tendência mais forte daquela garota. Ela já havia aceitado a condição de nunca mais amar ou de nunca mais viver algo que realmente lhe tirassem os pés do chão. 
Viver coisas efêmeras, sentimos água com açúcar e sua permanência da zona de conforto. A vida estava perfeita assim. A tarde caía e ela ia em busca de mais sorrisos. 
A rotina era a mesma: levantar em pleno domingo de manhã, colocar seu tênis, fones de ouvido e o parque. Era correndo que ela se sentia livre. O som alto e o vento batendo em seu rosto lhe faziam se sentir leve e bem. Essa combinação sempre lhe trazia o prazer que faltava, completava a parte que estava sem encaixe há anos. A mágica de estar só. 
E dessa maneira ela foi seguindo. A cada bocado de tempo quebrando a cara com a certeza que o ser humano é uma grande decepção. A sensação se estar livre durante suas corridas aos domingos pela manhã era a válvula de escape. 
Era tudo que ela mais queria: sensação de L-I-B-E-R-D-A-D-E.
O vento que lhe fazia bem ao tocar seu rosto, resolveu que era pouco para aquela moça esguia, de cabelos pretos lisos e olhar penetrante. Ele resolveu soprar com tanta força que arrastou para a vida dela alguém especial. Como se os laços da vida se enroscassem para nunca mais soltar.
O olhar antes fugitivo, parou. O coração antes medroso, saltou. As corridas em pleno domingo de manhã continuavam. Mas agora com um motivo diferente: pelo fato de não correr sozinha. 
O antes desacreditado destino teve ajuda do vento para provar o óbvio: o que é pra ser nosso… simplesmente vem. Entrelaça e bagunça, assim como forte ventania numa tarde linda de primavera. 

Tudo é uma questão de postura


Precisava andar sem rumo em meio aos prédios..
O motivo era simples..mais pura constatação de como ele se sentia há tempo: pequena.
Em meio aos corredores de carros, ônibus, pessoas apressadas nos seus mundinhos, olhando pra baixo como se buscassem algo que nunca vão encontrar 
Ela, no fundo, era uma delas.. 
Pensamentos a milhão…
Não entendia muitas coiaas..  o que tava acontecendo. Aquele sentimento, aquela vontade de fuga, desejo de ser uma mulher maravilha e de ter o poder de resolver tudo. De livrar e de arrancar dores e secar lágrimas. 
Se deu conta do quão paradoxa era. E como as cenas da vida mudam… depende dos atores que nela estão.
Aquela menina de expressão doce de um tempo pra cá era intolerante, carente, chata, impaciente.. Abadonava o barco e jogava tudo pro alto por muito pouco.
Ao notar pequenos detalhes da vida urbana resolveu assumir essa postura tão recente, mas tão característica … mas dessa vez era pra melhor.
E dane-se que são dois pesos e duas medidas. Simplesmente ela queria viver. Libertar-se de tudo… até mesmo das eternas memórias que o local da sua caminhada lhe trazia.
“Sim são duas situações iguais e em menos de um mes vou agir de maneira absolutamente diferente”, pensava
Mas, ao chegar no ponto final do trajeto, tudo ficou claro
Tem certas pessoas que valem a pena. 

Presente misterioso


Chovia muito naquela noite de sexta-feira. Fazia frio, principalmente naquele apartamento no centro de Belo Horizonte. 
Os carros andavam pela avenida do Contorno sem pressa. Como todo bom e típico mineiro. Mas naquela casa, o tempo passava mais devagar. Tudo ali era mágico, mas não de maneira encantadora. Tudo estava muito mais cheio de motivos. A busca por eles, na realidade.
E a noite que se iniciava parecia ser mais triste do que as outras que ela já tinha passado ali. Sozinha. Com o vazio da sala. O silêncio no telefone. A caixa de entrada de mensagens do seu celular sem se quer algo que lhe fizesse o coração pular. 
A meia-noite se aproximava quando a campainha tocou. Após um susto, ela abandonou as cobertas sobre o sofá, pausou um filme qualquer que passava na tv e lentamente caminhou até a porta. 
Ao observar o olho mágico …ninguém.
Receosa, ela abriu a porta.
Estava posto ali em sua porta um buquê. Eram rosas.Brancas. Amarelas. Vermelhas. Rosas. 
Todas já florescidas e com ar de frescor. Sem espinhos. 
O cartão não lhe desvendava o remetente, mas havia uma ordem:
“Tudo isso é para que você melhore logo!”
As pessoas são diferentes. Mas Deus envia as pessoas certas quando mais precisamos. E elas surgem de onde a gente menos espera. 
O coração anda frio, mas as rosas tem tentado deixar a vida um pouco mais colorida. 
Obrigada por tudo. Resume. 

Até que a morte os separe?


Todos dizem “até que a morte os separe”
Mas há sentimentos que ultrapassam a linha tênue para o lado de lá.
Existem histórias para nos provar que o amor na sua mais pura essência existe perdido em alguma esquina paulista. 
O amor que espera, suporta, ensina, aprende, vive …
E sobrevive, apesar da cruel passagem dos ponteiros.
É mais puro sentimento de entrega, renúncia, doação…
Amor não é só dar valor na vida, mas depois da partida..
Lágrimas incontroláveis, apesar de anos do luto. Sorrisos ao reler o mesmo texto, no qual já está decorado. Voz trêmula ao falar o nome do amado.
Amor além da morte é manter vivo em cada expressão o que se sente. 
Hoje eu encontrei o amor nos olhos de uma senhora. E me encantei.
Saí de um apartamento próximo da Av.Paulista com o desejo de ter um amor assim. Para além da morte. 
Obrigada, Dona Albertina. Obrigada, Leônidas da Silva. 

Roda vida, roda viva.


A vida é uma grande ciranda. Que por vezes  assusta, mas no segundo seguinte fascina.
No correr dos dias, essa grande roda vai girando.. pessoas entram na dança. No mesmo compasso intenso, outras saem.
Nem sempre nós, apenas mais um personagem nessa enorme trama, conseguimos lidar com os enlaces e percalços dessa roda.
Ás vezes ela corre demais.
Mais do que esperamos, queremos, desejamos … tentamos conter os movimentos, mas é em vão. 
Porém, ao olhar pro lado, vamos uma lerdeza sombria e fria.. muito fria. 
Quando parece que o caminhar das pessoas em nossas cirandas anda muito desmotivado ou fora de ritmo ..
Bailarinos entram em cena… nos levam, mostram novos horizontes. 
É pra eles que devemos olhar quando tudo parece fora órbita… 

Desafio de ser mais…humana.


A verdade é que ela luta contra o tempo.
O tempo de amar, viver, sobreviver, trabalhar, divertir…
O tempo de ter a oportunidade de ser ela mesmo. Sem máscaras, hipocrisia ou sorrisos amarelados.
É como se todos os dias levantasse com desafio de ser um pouco mais feliz, um pouco mais realizada. 
Em grande parte, infelizmente, tem perdido essa luta contra o tempo.
Pelo caminho - que anda sendo bastante árduo - ela tem deixado escorregar de suas mãos instrumentos importantes para ser feliz.
Paciência, tolerância, companheirismo, amizade, amor, compreensão …
Tem a impressão que tem deixado cair pela beirada da trajetória um pouco de si … daquela que todos admiram, amam e querem ter ao lado.
Não tem feito o suficiente pra si mesmo. A constatação dói mais do que o suportável.
Não consegue parar por algumas horas pra pensar em si, não arruma tempo hábil para pessoas especiais (sejam elas de longa data ou não), olha no espelho e não dá para identificar grande parte do que já foi um dia.
Todos os dias é uma verdadeira peleja para ser melhor, mais calma e dedicada. Sabe que na verdade só precisa parar, respirar e pensar um pouco mais nela mesma. Estar focada no crescimento, mas não tornar isso o centro do mundo.
Porque será que com o caminhar dos acontecimentos é tão difícil pensar na sua vida?
O “meu” talvez tenha sido a primeira grande perda dessa mulher …
Porém, chegou o momento de mudar a ordem dos ponteiros.
É o momento de amar mais, viver mais e colocar uma grande colher de verdade nisso tudo. Realismo !
Ser mais humana .. essa será motivação para levantar todos os dias, independente do que acontecer.
O momento que ela está é especial demais para que tudo escorregue entre os dedos…
“Porque tudo é uma questão de ter a mente quieta, a espinha ereta e o coração 
tranquilo” (Provérbio Chinês)

Relógios


Era um galpão pequeno, mas com espaço suficiente para abrigar ferramentas, papéis e muitos relógios. O local escuro, mas tinha um pouco do Sol que entrava pelas frestas do teto de madeira.
Apesar da pouca luminosidade, dois relógios saltavam aos olhos de qualquer pessoa que por ali ousasse entrar. Eram dourados, de bolso, com desenhos típicos de uma realeza. Estavam ali, lado a lado, o relojoeiro havia colocado um perto do outro justamente pelas semelhanças. 
Os dois seriam iguais, se não fosse um detalhe pequeno, porém mortal. Os arranhões que cada um trazia consigo. Um deles estava muito mais surrado, nitidamente. Vivera muito mais intensamente, experiências dolorosas, quedas complicadas. O outro ainda tentava se libertar do estereótipo de novinho, bem cuidado, protegido. 
A sintonia entre os dois objetos era nítida. A troca de força e a beleza que passavam era encantador. Entretanto, os arranhões começaram a fazer diferença. Um se achava demais, outro de menos. As barreiras colocadas estavam demais. O relógio mais novo fitava seu co-irmão com grande afeto. Pedia passagem, mas não tinha sucesso. Lutava, tentava se mostrar ao Sol, com objetivo de brilhar ainda mais e mostrar seu valor. Nada. Tentava alcançar o nível, a superioridade, a frieza para tal situação que o outro possuía ..
O relógio mais arranhado teimava em se mostrar arredio, quando se dava ao luxo de atentar para o seu lado. As experiências fazem toda diferença - para o bem e para o mal. 
As marcas do uso afastaram os dois relógios. E não foi por escolha do relojeiro. 

A cigana


Cabelos negros e compridos, amarrados com uma rosa vermelha, escorriam pelo lado direito de seu rosto. Os grandes olhos castanhos penetravam no mais íntimo da alma. O rosto fino, a boca carnuda pintada de carmim. Dentes brancos se revelavam a cada sorriso. 
Imagem mais do que sedutora.
Seu corpo era milimetricamente perfeito. Sua pele morena contrastava com seu vestido branco, cheio de babados, que deixava um ombro a mostra. As pulseiras douradas balançavam e o chamavam para dança. O rebolado incrível, as mãos girando, os braços envoltos de seu próprio corpo, as pernas grossas de fora. A sensualidade exalava pelos poros. Cada compasso da música animada e das palmas, os olhos dela chamavam pelos olhos e, principalmente, pelos desejos dele. 
A noite transcorria e ele continuava ali, em pé, parado, não acreditando no que presenciava. Deslumbrado. 
Nada mais importava ao seu redor. As barracas bem iluminadas, o luar brilhante, o som impecável do violão, o cheiro da dama da noite, o rio cheio e robusto mostrando toda sua potência.
Ele estava fissurado naquela cigana, que chegou de mansinho, como quem não quer nada e o prendeu de tal forma que estarrecia. Não conseguia olhar ao seu redor. 
O que ele ainda não se deu conta é que apesar de toda beleza, sensualidade e sedução, ela é uma cigana. E logo menos vai partir, pois a vida itinerante não perdoa. Somente depois da decepção ou da partida é que os olhos se abrirão novamente.