sábado, 28 de agosto de 2010

A viagem

"Interessante, porque nossa vida é como uma viagem de trem, cheia de embarques e desembarques, de pequenos acidentes pelo caminho, de surpresas agradáveis com alguns embarques e de tristezas com os desembarques...


Quando nascemos, ao embarcarmos nesse trem, encontramos duas pessoas que acreditamos que farão conosco a viagem até o fim. Nossos pais.
Não é verdade.
Infelizmente, em alguma estação, eles desembarcam, deixando-nos órfãos de seus carinho, proteção, amor e afeto.


Mas isso não impede que, durante a viagem, embarquem pessoas interessantes que virão ser especiais para nós. Nossos irmãos, amigos e amores.
Muitas pessoas tomam esse trem a passeio.
Outras fazem a viagem experimentando somente tristezas.


E no trem há também outras que passam de vagão em vagão, prontas para ajudar quem precisa.


Muitos descem e deixam saudades eternas.


Outras tantas viajam no trem de tal forma que, quando desocupam seu assentos, ninguém sequer percebe.


Curioso é considerar que alguns passageiros que, nos são tão caros, acomodam-se em vagões diferentes do nosso.


Isso nos obriga a fazer essa viagem separados deles. Mas isso não nos impede de, com grande dificuldade, atravessarmos nosso vagão e chegarmos até eles.


O difícil é aceitarmos que não podemos sentar ao seu lado, pois outra pessoa estará ocupando esse lugar.


Essa viagem é assim: cheia de atropelos, sonhos, fantasias, esperas, embarques e desembarques.


Sabemos que esse trem jamais volta (...) "

(Autor desonhecido)


O pior de tudo é saber que não podemos controlar a entrada e a saída das pessoas. Por mais que a gente queira, isso é incontrolável.

Não sei se isso é bom ou ruim. Ainda falta descobrir.
Por momentos, sim.. tenho recebido pessoas maravilhosas na minha vida.

O risco dessa viagem é grande. É preciso, as vezes, fechar a porta do vagão para outros. Mesmo contra sua vontade.

Mas riscos existem para serem enfrentados. Corajoso é aquele que enfrenta. Nesse ponto, me considero corajosa. Até demais. Quanto ao resto, eu nunca vou entender.

Vou conservar as pessoas que estão no meu vagão hoje e que, apesar de todos os defeitos do mundo, permanecem ao meu lado.

Outras estarão no outro vagão, logo ali, as acompanharei por pensamento e memórias.

E as que desceram (por escolha ou não) ... é a vida. Nem tudo é pra sempre.


quinta-feira, 5 de agosto de 2010

O elo.

Tudo era deles. O mundo. O desejo. A alegria. A companhia. O encaixe. O comum. O diferente.
Viviam num mundo paralelo.
Era totalmente louco. Desvirtuava de tudo o vivido até ali. Era intenso.
Beijos. Abraços. Silêncios. Olhares que se completavam. Mãos que se afagavam.
Esse era o mundo que pertenciam a partir daquela tarde fria em que se conheceram.

O mundo se tornou tão completo e necessário que eles resolveram criar um universo deles. Sim, como nas histórias envolventes que passam nos canais de TV a cabo. Dessa forma, arrumaram um apartamento. Ali, naquele pequeno local alugado no centro de São Paulo, eles viveriam o que lhe estava destinado: um conto intenso de amor.

Se encontravam todos os dias. Em horários alternados, quando dava. Rotina não tinha espaço naquele relacionamento. Mas sempre dava para arrumar um tempo. Pois para aquele sentimento não havia barreiras, não havia obstáculos. O que interessava era estar perto, pois só assim, eles se sentiam completo.

Como num dia corriqueiro com o Sol iluminando a cabeça das pessoas , que estão ocupadas demais para admirá-Lo, ela foi esperá-lo no apartamento. No horário marcado. Sua boca estava seca. Suas mãos ansiosas pelo toque quente e adocicado dele. Seus olhos buscavam o amado. O seu corpo pedia pelo calor e pelo abraço confortador.

Assim como o tic-tac do relógio parecia mais intenso com o passar das horas, seu coração começava a bater cada vez mais e mais rápido. Parecia que ia sair pela boca.

Cerca de uma hora e meia depois do horário marcado, ele chegou. Meio disperso. Estanho. Mas com o mesmo olhar e as mesmas carícias que o corpo dela já conhecia bem. Nada de anormal, um atraso qualquer.

Mas, com o escorregar das semanas, ela foi vendo que aquele fato do atraso não era algo incomum. Era um sinal e algo mudou . Sim, algo de fora o atraía mais do que todo mundo perfeito que eles haviam criado. Ele estava longe, disperso.

Ela havia perdido algo no tempo, o que culminou no afastamento dele.
Nunca antes havia percebido isso.
Não entendia onde tinha errado, o porque de tudo aquilo.
O fato é que ele queria ir embora. Não desejava mais pertencer totalmente aquele mundo.
Ele estava desejando o mundo externo.
E o que ela poderia fazer?

Pois é, não tinha escolha.
Apesar do olhar nunca ter mudado. Dos abraços nunca terem esfriado. Dos desejos nunca terem morrido. Da boca que continuava seca. Do toque quente.

Mas nada, nada mais o prendia junto dela. Muita coisa, nele,em relação a ela, não havia mudado. Ouvira isso da boca dele, mas preferia não pensar. Ali não era momento de pensar. Se ela fizesse isso, nunca teria coragem. Agir era preciso.

Os dias que sucederam depois da conversa que os dois tiveram na sala do apartamento, que antes presenciava sorrisos e beijos, foram complicados. Ela voltava ao lugar e aquilo era uma forma de auto flagelo.

Um dia ela chegou a encontrá-lo. Não entendia porque ele havia voltado ali. De um susto, a alegria, da alegria a tristeza. Sabia que nada ali mais a pertencia, mesmo sentindo que sim. Ela sabia que não.

Mas desse dia, ela tirou uma certeza.
O mundo podia girar, tudo passar, mas eles estariam ligados sobrenaturalmente de algum jeito.
Independente de tudo, aquilo foi um grande amor.

Por isso, ficou decidido que o apartamento continuaria ali. O aluguel seria bancado pelos dois. Nada, nada seria modificado. Os livros não seriam removidos, os cds que antes embalavam os encontros e que ainda permaneciam jogados pelo chão..
A cama.. tudo continuaria da forma como eles deixaram.
A diferença é que a porta estaria trancada e aquele universo ficaria no passado, isolado na selva de pedra paulistana.

Ele finalmente poderia se dedicar totalmente ao que atraía no mundo externo.
E ela, romântica por essência, continuaria sua vida apostando nos novos amores, que naquela altura já apareciam.

O elo entre eles, o apartamento, tudo continua ali.
Eles sabem que a ligação é inquebrável, apesar da distância imposta.
O carinho, o afago, a preocupação, o desejo serão os mesmos.
Como da primeira vez.
O tempo vai passar, o mundo girar, mas os dois sempre vão pertencer um ao outro, de algum jeito.

Os eternos amantes sabem como tudo entre eles foi no passado e como é no presente. Mas nenhum dos dois aposta como será o futuro. Só o tempo dirá..